sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Exposição de Salvador Dalí chega a Salvador

Salvador vai receber, a partir de quarta-feira, 18, a exposição Dalí: A Divina Comédia, no Espaço Caixa Cultural. O acervo conta com 100 gravuras de Salvador Dalí que ilustram os cantos dos poemas épicos de Dante. A exposição tem entrada gratuita e permanece na capital baiana até o dia 23 de fevereiro.
Salvador Dalí: mestre da arte surrealista
As gravuras de Dalí percorrem a viagem imaginária de Dante, desde os círculos infernais, acompanhado por Virgílio, até ao centro da terra, onde encontra Lúcifer. Depois regressando à superfície terrestre, sobe a montanha do purgatório, para, guiado pela sua amada Beatriz, ser admitido no paraíso.
Gravuras de Dalí representam os poemas da obra A Divina Comédia, de Dante
A série em aquarela foi criada entre 1950 e 1960 por encomenda do governo italiano, no âmbito das comemorações dos 700 anos do nascimento de Dante. O conjunto de cem gravuras da obra de Dalí foi apresentado em Paris em momentos diferentes, nomeadamente, em 1960, o Inferno, em 1962, o Purgatório e, em 1964, o Paraíso.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O acendedor de cachimbos

Se em 1909 os acendedores de lampiões chamaram a atenção de Jorge de Lima, no século XXI, outras figuras sociais nos questionam diariamente a respeito da sociedade em que vivemos, do que somos e fazemos por nós e pelo próximo.  
Nesse sentido, publicamos a releitura do poema “O acendedor de lampiões”, produzida por Jonathan Silva.
Eis sua proposta:
 Em “O acendedor de lampiões”, o poeta retrata o papel importante do acendedor de lampiões para aquela cidade, que mesmo tomado pelo o cansaço, vai todas as noites levar a luz para iluminar a noite, em substituição ao Sol, juntamente com a Lua.
Então, com base no texto de Lima, foi criado uma releitura com a mesma temática social, porém mais contemporânea e fácil de ser visualizada, já que se trata dos  usuários de drogas que habitam as noites, alimentando seu vício, sob olhares de cidadãos que não propõem iniciativas para erradicação do problema.
A importância de se trabalhar com essa temática social é a de conscientizar ainda mais a população dos inúmeros problemas vivenciados pela nossa sociedade, mas que parecem se tornar, a cada dia, invísiveis.

 O ACENDEDOR DE CACHIMBOS 


 Lá vem, mais uma vez, o acendedor de cachimbos para a rua.
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Se esconder do Sol na ilegalidade da Lua
Que enegrece, pela noite, o mais inóspito ambiente.

Um, dois, três cachimbos, acende e continua
Outros mais surgem a acender imperturbavelmente,

À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste e fria realidade de quem vê e desconfia:
Eles, que queimam a noite e mancham a cidade,
Talvez não possuam nem uma choupana para lhe esconder do dia.

Tanta gente que por eles passam e repudiam:
Doentes, miseráveis, viciados, famintos
São esses os acendedores de cachimbos das ruas.

Jonathan Silva cursa o 3o ano do curso de Química 
(IFBA/campus Salvador) e atua como pesquisador (IC) em projeto de pesquisa da Petrobrás. 

Um pouco de Jorge de Lima

O itinerário poético de Jorge de Lima percorreu quatro fases: a parnasiana, a da poesia negra, a místico-católica e a épica. A primeira pode ser percebida em O Acendedor de lampiões, poema de 1909, ainda intoxicado da leitura dos partidários da arte pela arte. 



Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
A medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente. 

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita,

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua.


Os vestígios do parnasianismo são notados claramente pelo cuidado com os vocábulos e na construção das rimas para a representação do trabalho do acendedor de lampiões, que é bastante objetiva e descritiva.
Ainda assim, nestes versos, Lima parece se compadecer desse trabalhador, afastando-se dos princípios parnasianos.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Sobre o amor...

Octávio Paz enfatiza que, desde o início da literatura ocidental, grande parte dos poemas, textos dramáticos e romances dão uma atenção especial ao amor. Nessa linha, “a história da literatura [pode ser vista] como a história das metamorfoses do amor” (PAZ, 2004, p. 94) que variam desde a sua representação no trovadorismo com o amor cortês em que “amor é sinônimo de se colocar a serviço da amada, de sofrer e morrer de amor”, tornando o objeto amado sempre inacessível (FERREIRA, 2004, p. 45); suas configurações na Renascença quando “amor é desejo de união com o amado e todo desejo é amor e todo amor é desejo” (LEÃO HEBREU apud CHAUÍ, 1990, p. 23); no romantismo com o amor relacionado ao sonho, ao sofrimento, à idealização e à morte; até a contemporaneidade com as representações do amor “líquido”, frágil como os laços humanos próprios de um mundo em que as relações tornam-se cada vez mais fluidas (BAUMAN, 2004). Enfim, são muitas as representações do amor, desde Platão até nossos dias, e ainda assim, não sabemos como defini-lo, uma vez que ora o amor nos leva ao ápice ora nos mostra a derrocada humana, ora é paixão e desejo de posse ora é liberdade de escolha, e quer seja vida quer seja morte, permeará sempre nossas vidas e das personagens que vivem nos poemas, romances e textos dramáticos.




Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. 
CHAUÍ, Marilena. Laços do desejo. Em: NOVAES, Adauto (Org.). O desejo. São Paulo: Companhia das Letras; [Rio de Janeiro]: Funarte, 1990.
FERREIRA, Nadiá Paulo.  A teoria do amor. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
PAZ, Octavio. A dupla chama: amor e erotismo. Tradução de Wladir Dupont. São Paulo: Siciliano, 1994.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A IGREJA DO DIABO


Machado de Assis



Capítulo I
De uma ideia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a ideia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

Capítulo II
Entre Deus e o Diabo
Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
— Que me queres tu? perguntou este.
— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.
— Explica-te.
— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa ideia, não vos parece?
— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.
— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
— Vai.
— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja.
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma ideia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve instante de eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura... 
— Velho retórico! murmurou o Senhor.

— Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos, — com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, — ou sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos...
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.
— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
— Já vos disse que não.
— Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
— Negas esta morte?
— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
— Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!
Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.
Capítulo III
A boa nova aos homens

Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
— Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu..." O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloquência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: Muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.
Capítulo IV
Franjas e franjas

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinquenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter-se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia que duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:
— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.
Disponível em:<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000195.pdf>.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Releitura de A hora da estrela, de Clarice Lispector



        A hora da estrela é também uma despedida de Clarice Lispector. Lançada pouco antes de sua morte em 1977, a obra conta os momentos de criação do escritor Rodrigo S. M., também narrador da história de Macabéa, uma alagoana órfã, virgem e solitária, criada por uma tia tirana, que a leva para o Rio de Janeiro, onde trabalha como datilógrafa.
      É pelos olhos do narrador e através de seu domínio da palavra que a existência e a essência são expostas como interrogações. Tal presença masculina retrata um universo de fragmentos, onde o ser humano não é respeitado, mas desacreditado nessa reconstrução de uma realidade mutilada.
       Em A hora da estrela Clarice escreve sabendo que a morte está próxima e põe um pouco de si nas personagens Rodrigo e Macabéa. Ele, um escritor pessimista diante da vida e da existência; ela, uma moça solitária que, dentre outras coisas, gosta de ouvir a Rádio Relógio... 

       A hora da estrela é uma obra instigante e inovadora. Como diz o narrador-personagem Rodrigo, estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Alguns estudiosos acreditam que o narrador é o alter-ego de Clarice, contando uma história e, ao mesmo tempo, revelando ao leitor seu processo de criação e sua angústia diante da vida e da morte.

      Em homenagem à autora e à obra, Bruno Papa, Josenildo Sena, Cristiano Monteiro e Alex Bruno, alunos do curso de Edificações (Turma 1812/IFBA/campus Salvador) produziram o vídeo acima.

Aproveitem!!!!

Mais informações sobre A hora da estrela em:<http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/a/a_hora_da_estrela>.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Rock soteropolitano com a Banda Aesir


Criada em 2012, a Aesir é uma banda de Folk Metal com composições que falam sobre a mitologia nórdica. O nome do grupo, cuja pronuncia em português é Êzir, significa o clã dos deuses que vivem em Asgard.




A banda foi formada por Leonardo Silva (Guitarra) e Peter Wiggins (Vocal) e conta ainda com Ramon Lopes (Guitarra), Caio Frois (Baixo) e Fábio Nascimento (bateria). Com sete músicas autorais, o grupo deve entrar em estúdio em 2013 para gravar o primeiro EP da carreira.
De acordo com Leonardo Silva, após a entrada do antigo guitarrista, Hermes Santos, a banda passou a compor com objetivos mais profissionais. Ainda segundo o músico, até pouco tempo atrás o grande problema do Aesir era encontrar um baterista. “Fizemos nosso primeiro show com o Marcelo Estevão, um batera emprestado de outra banda”.


Nesse mesmo dia, um fato inusitado marcou a trajetória da banda. “O vocalista Peter Wiggins se atrasou e chegamos 40 minutos após o horário marcado para a apresentação, sendo que só tínhamos 50 minutos de show”. Mas, segundo Leonardo, os 10 minutos restantes foram suficientes para “derrubarem a casa”.

Leonardo Silva

Caio Frois e convidado


Ele afirma que aquele foi o show mais eletrizante da Aesir, ocasião em que a plateia alucinada formou um enorme mosh, uma espécie de ritual no qual roqueiros se empurram e se batem, sem violência, ao ritmo da música. “Não existe sensação igual de ver aquilo de cima do palco. Naquele dia, descobrimos que era aquilo que queríamos fazer”.

Mais informações: https://www.facebook.com/AeSirbanda

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Enem - Redação


O GLOBO
4/11/12 - 21h29

RIO - Os professores de redação da Rede Pensi e do Sistema de Ensino GPI, Rafael Cunha, Raphael Torres e Daniel Jorge, elaboraram uma redação modelo para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2012, cujo tema foi “A imigração para o Brasil no século XXI” e tinha textos de apoio sobre a vinda de bolivianos e haitianos. Leia e compare com a sua:

Uma nova canção

Índios, negros e brancos. Japoneses, haitianos e alemães. Essa histórica Torre de Babel compõe o quadro único da identidade étnico-cultural da pátria que hoje chamamos Brasil. Diante de tal perspectiva, seria paradoxal duvidar da capacidade de nossa nação acolher os novíssimos fluxos imigratórios que aqui aportam no século XXI. Como lidar com as nuanças do processo?
É preciso considerar, primeiramente, a questão da legalidade desses movimentos. Entraves diplomáticos e ausência de documentação básica fazem com que os novos habitantes se transformem em mais do que estrangeiros – estranhos. Prova disso são muitos latino-americanos que, impossibilitados de exercer atividades regulamentadas, submetem-se à informalidade e à exploração.
Por outro lado, a presença de imigrantes legais também pode provocar incômodos. O acirramento da competitividade no mercado pela chegada de trabalhadores qualificados – alguns, inclusive, europeus – dificulta a busca da utopia socioeconômica dos brasileiros. O mundo de Thomas More nunca pareceu tão romanticamente inalcançável.
Nesse contexto, muitas vezes, o cidadão se revela contrário à presença dos "invasores" em sua terra. Preconceito e, até mesmo, xenofobia – comportamentos repugnantes – acabam por ganhar projeção num cenário de suposta aceitação recíproca. Contrário à ideia aristotélica de pluralidade na desigualdade, o brasileiro desperdiça a chance de evoluir com o "novo".
Fica claro, portanto, que a tão exaltada sexta economia do mundo precisa ser mais capaz de considerar o lado humano de sua composição. Para isso, o Estado deve elaborar e efetivar leis e ações afirmativas de integração de imigrantes. A mídia precisa cumprir sua função social, aproximando diferentes culturas e ensinando a sociedade a olhar com mais zelo pelo outro. Talvez, assim, possamos um dia reescrever a Canção do Exílio, simbolizando o lar de – e para – todos: "Nossa terra tem palmeiras / Onde canta o sabiá".


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

ENEM - CRITÉRIOS PARA A CORREÇÃO DAS REDAÇÕES


As redações deverão ser corrigidas com base nas cinco competências expressas na Matriz do ENEM e traduzidas para uma situação específica de produção de texto.

Cada competência será avaliada por quatro critérios correspondentes aos conceitos insuficiente, regular, bom e excelente, convertidos, respectivamente, em níveis 1, 2, 3 e 4. Esses níveis serão representados por pontos, respectivamente, 2,5; 5,0; 7,5 e 10,0.

I. Modelo de Análise da Redação do ENEM 




COMPETÊNCIA
Na situação de
produção textual

NÍVEIS





I





Demonstrar
domínio da norma
culta da língua
escrita.
1. Domínio precário da norma culta, com graves e frequentes
desvios gramaticais, de escolha de registro e de convenções da escrita.
2. Domínio razoável da norma culta, com desvios gramaticais,
de escolha de registro e de convenções da escrita, pouco aceitáveis nessa etapa de escolaridade.
3. Bom domínio da norma culta, com pontuais desvios gramaticais e de convenções da escrita.
4. Muito bom domínio da norma culta, com raros desvios gramaticais e de convenções da escrita.








II





Compreender a
proposta de
redação e aplicar
conceitos das
várias áreas de
conhecimento
para desenvolver
o tema, dentro
dos limites
estruturais do
texto dissertativo-argumentativo
1. Desenvolvimento tangencial do tema e apresentação embrionária do tipo de texto dissertativo-argumentativo; ou
desenvolvimento tangencial do tema e domínio razoável do tipo de texto dissertativo argumentativo; ou desenvolvimento razoável do tema e apresentação embrionária do tipo de texto dissertativo-argumentativo.
2. Desenvolvimento razoável do tema, a partir de considerações próximas do senso comum, e domínio precário do tipo de texto dissertativo-argumentativo.
3. Desenvolvimento razoável do tema e domínio razoável do
tipo de texto dissertativo-argumentativo.
4. Bom desenvolvimento do tema, a partir de um repertório
cultural produtivo e de considerações que fogem ao senso comum, e bom domínio do texto dissertativo-argumentativo.








III




  



Selecionar,
relacionar,
organizar e
interpretar
informações, fatos,
opiniões e
argumentos em
defesa de um
ponto de vista.
1. Apresenta informações, fatos e opiniões precariamente
relacionados ao tema.
2. Apenas apresenta informações, fatos e opiniões, ainda que pertinentes ao tema proposto, ou limita-se a reproduzir os argumentos constantes na proposta de redação.
3. Seleciona informações, fatos, opiniões e argumentos pertinentes ao tema proposto, organizando-os e relacionando-os de forma pouco consistente em relação ao seu projeto de texto.
4. Seleciona, organiza e relaciona, de forma consistente, informações, fatos, opiniões e argumentos pertinentes ao tema proposto em defesa do ponto de vista defendido em seu projeto de texto.





IV




Demonstrar
conhecimento
dos mecanismos
linguísticos
necessários
para a
construção da
argumentação.
1. Desarticulação das partes do texto.
2. Articulação precária das partes do texto, devido a problemas frequentes na utilização dos recursos coesivos.
3. Articulação razoável das partes do texto, com problemas eventuais na utilização dos recursos coesivos.
4. Boa articulação das partes do texto, sem problemas graves na utilização de recursos coesivos.








V



Elaborar
proposta de
solução para o
problema
abordado,
mostrando
respeito aos
valores
humanos e
considerando a
diversidade
sociocultural.
1. Não elabora explicitamente uma proposta e não fere os princípios dos valores humanos e da diversidade
sociocultural.
2. Esboça algumas ideias que podem ser o núcleo de
uma proposta, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural.
3. Elabora proposta genérica de intervenção sobre a problemática desenvolvida, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural.
4. Elabora proposta específica, respeitando os valores humanos e considerando a diversidade sociocultural.

A nota global da redação será dada pela média aritmética das notas atribuídas a cada uma das cinco competências específicas da redação.

A redação que não atender à proposta solicitada (competência II: tema/tipo de texto dissertativo-argumentativo) receberá o conceito D (desconsiderada). A redação em branco receberá o conceito B (em branco) e a redação com impropérios, desenhos ou outras formas propositais de anulação, receberá o conceito A (anulada). Em todos esses casos será atribuída nota zero às redações, sendo que o zero das redações em branco (B) é o único excluído do cálculo da média da nota de redação dos participantes.

Sucesso!!!!!!